Rascunhos











Ontem à noite, a fim de obter uma melhor luminosidade, arrastei minha cama em frente à janela escancarada, e fiquei assim recostado, lendo um livro que falava sobre cognição, pontos de aglutinação energética, e outras coisas do gênero, que já nem me lembro mais...

Assim, acabei por perder a noção (ou a percepção) do tempo, ou adormeci. Não sei ao certo o que aconteceu. Passei então a ouvir um zumbido de motor, tipo um secador de cabelo, e em seguida percebi, bem próximo ao parapeito da janela, algo como uma pequena nave, do tamanho de um Karmann-Ghia talvez, e a bordo desta, ao volante, o que me pareceu ser um índio. Era um ser de pele avermelhada ou bronzeada, e tinha os cabelos bem pretos, amarrados para trás, formando um rabo-de-cavalo. 

E então esse disco-voador-Kharmann-Ghia parou silenciosamente, e aquela figura levantou-se de seu assento, e me atirou uma corda através da janela...

Estou ouvindo passos lá fora no corredor do condomínio... Vozes saindo de rádios. Um tênue facho de luz num tom azul bem clarinho, em forma de onda, invade a kit, passando por debaixo da porta...

Eu tento segurar a "corda" que me foi atirada. O índio parece querer me dizer alguma coisa, com seguidos movimentos de seus olhos.

As vozes do outro lado da porta, de forma abafada, parecem dizer:   "Aqui!... Aqui!..."






Vejo a Lua...

No fim
restou
apenas meu próprio Espírito
Que depois eu percebi
Não era eu
Era Deus

Nunca pensei que viveria o bastante para passar por isso...

Ontem fiquei por quase duas horas numa fila imensa, num posto de saúde do bairro
para tomar minha primeira dose gratuita de vacina anti-gripe H1N1 fornecida pelo governo federal.

Só que a besta do vacinador me aplicou uma H2 N Oh!
E, antes mesmo que eu conseguisse abrir a boca e retornar para kit, começaram a estourar umas perebas, primeiro no meu pescoço, e depois nas minhas pernas, de modo que logo eu estava semi transformado nessa horrorosa mosca varejeira azul-metálico, que agora vos escreve.  

Quando eu percebi, 80% da minha vida já havia se transformado em passado

E o que restara de presente, funcionava apenas parcialmente
Eu diria que com apenas 15% de sua capacidade original.

Por isso, na maioria das vezes, eu prefiro me abstrair

e correr de volta para a Torre.  

Quantas vezes já não dissera a mim mesmo

 "Um momento, Dement! Por favor..."


Que unidade energética sou eu?
Sou eu agora?

Chegamos ao fim da Arte
Não precisamos mais representar.


Às vezes me sinto como um Cristovão Colombo que saiu para dar uma volta ao redor mundo em sua caravela primitiva, e, depois de dobrar o Cabo da Boa Esperança, não sendo mais atraído a Terra pela força da gravidade, perdeu-se no espaço infinito.



















Soul

Quem eu penso
Que sou?
Quem existe?
Quem está aqui?
E quem não está
Perdido nessa podridão?



Crianças pobres
Sem escudo
O apito das fábricas
A cadeira no telhado


Gostava tanto de você
Do seu jeito de vomitar
Do seu perfume de laquê


Céu Sem Star
Palavras-chave
Que não abrem
As nuvens..
Não agridem
Que me sugam
O minuto inteiro
Para outra dimensão
Onde vive petrificado
À sombra do abacateiro
O homem de pedra que esteve aqui...

Onde as garças
Nada significam
Além da Toyota molhada que late

Cessando a dor...

Meus olhos lançam flashes
no escuro do quarto
Minhas pilhas estão no fim...
Morrerei ontem
E viverei hoje
Para sempre
Amém...

Puta merda de mouse!
enroscado nos meus dedos do pé (!)

Sonhei que alguém sem rosto me matava com um taco de golfe, e que não havia balas no meu revólver.
Do meu pênis saíam faíscas azuis, que queimavam as paredes de mármore do tempo, formando hieroglifos...


Cheiro e calor que se aproximam de mim, das minhas axilas molhadas, das xícaras de café sobre a mesa, das manchas de barro na sola dos pés. Eu pintava quadros, mas patinava, e não saía do lugar comum...

Se o tempo não existe, por que você voltou, Dement?
Pare de espirrar, enxugue suas lágrimas, e comece a esquecer

Revivendo a vida em câmera lenta atrás da porta
Comendo a tapioca
Torcendo o rabo da porca...

Estou cheio de problemas
Atirando bananas de dinamite aos macacos rebeldes.

Ainda que me matassem de saudade
Ninguém se salvaria...

Foi muito bom te levar para pescar
Sentada em meu colo, na minha Romi-Isetta inivisível...

Costumava colocar os óculos
E pegar uma estrela do céu
Grudava-a então no peito
para brincar de xerife...

Olhava na direção em que imaginava ficar os Estados Unidos
e tentava ver a primavera.

Cada um tem seu preço. Parafuso descaralhado. Alinhamento de astros.
Estou super magoado contigo.
Desde 2002 estou te mandando SMS e você não responde. 
Papagaio mascarado, arbitrário. 
Vida em conserva, buracos na minha mente. 
Essa mente não é minha. Não presta!

Estou me refinando a preço de custo, sacrificando meu ego, e ninguém se interessa pelos meus Planos Z Bolinha. Todos querem apenas navegar no messenger. 

Corrida de estrelas. Charretes atômicas.

Sinto-me um ancião precoce. Mais uma noite que eu uso meu xampu anti-caspa, anti-piolho, e olho pelo olho mágico da porta da kit, e vejo apenas a dona Leda com seu sorriso torto de Mutley, mordendo o lábio superior, desamassando os papéis que eu jogo pela janela do banheiro, procurando pelos meus textos...