Escuridão















O que cada um espera de mim?
Que eu me vista?
Que bata à porta?
Que me arrume?
Passe bastante perfume (?)

Que insista?
Que passe por debaixo da porta?
Arrombe a janela? (!)

E se não esperam nada? (!)
Virarei-lhes as costas
e retornarei à floresta?

Sou agora
Um ser evoluído e antiquado
Que acredita em espirros
E fantasmas da meia-noite
E não dá bola
Apaga o cigarro

Acende velas
E faz orações para Santa Edwiges
Ajoelhado aos pés da cama
De mogno escurecido e cupim...

Que desliga rapidamente
Todos os eletrodomésticos
E cobre com panos
Todos os espelhos
Que tiver em casa
Ao primeiro sinal
De relâmpago ou tempestade

Ouvindo assustado
O assobio tétrico da ventania
Passando rente à janela do quarto

Ouvindo morcegos
Voando em meus pulmões

Que grita em silêncio
Com a cara vermelha
Cheia de bosta
Cagando-se por dentro
Enquanto, disfarçadamente, sorri
Fazendo o sinal da cruz

Acenando positivamente a todos
Evolucionistas e tecnocratas
Que, agarrados como Tarzan
Na verdade, não passam de símios
Balançando em cipós
Numa selva euclidiana
Ou cartesiana, sei lá...

Ao menos
O pouco que cresci nesses últimos dias
Serviu para que eu pescasse
Meu próprio peixe no supermercado do bairro
Ao invés de ficar que nem o amigo do Zorro
Pedindo a rede, ou a vara (que horrível dizer isso!)
Emprestada ao meu irmão
trancado na cripta...